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Entenda a crise das empresas de pacotes de viagens 

Com o fim da pandemia de Covid-19, o setor de turismo anda mais aquecido do que nunca, com muita gente querendo viajar. Mas a grande procura por destinos turísticos não foi suficiente para evitar as crises que empresas que vendem pacotes, como a Hurb e mais recentemente a 123 Milhas, estão passando.
 

Segundo o coordenador do Instituto de Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Ahmed El Khatib, ao contrário de empresas como Airbnb e Booking, que cobram uma taxa dos hotéis e das pessoas físicas para aparecerem em suas vitrines de negócios, o Hurb, é um intermediário que recebe o dinheiro do hóspede, pagando seus fornecedores depois de receber e da viagem ser realizada.
 

“A Hurb também adotou a arriscada estratégia de oferecer pacotes a preços muito baixos, quase simbólicos. Vendia, por exemplo, um pacote de R$ 1.000 para sete dias na Disney, a ser utilizado pelos clientes quando o mundo voltasse ao normal e reabrisse no pós-pandemia. A ideia do Hurb foi oferecer esse tipo de promoção para reforçar o caixa no curto prazo, imaginando que encontraria um ponto de equilíbrio financeiro quando o turismo global fosse retomado. Mas a inflação acumulada do período fez o preço das passagens e hospedagens aumentar muito e agora não é possível honrar os compromissos. Sem receber, hotéis parceiros passaram a recusar as reservas de clientes do Hurb”, relembra o docente.
 

Já a 123milhas, em 2022, por exemplo, era um dos sites de viagens mais acessados do país, e teve problemas com o Procon-SP por conta de passagens e pacotes que simplesmente sumiram. Enquanto o mercado e o turismo sofriam uma queda na demanda provocada Covid-19, a empresa oferecia pacotes “atraentes” de viagens, seja com preços muitíssimos baixos ou com facilidade para marcar a data.
 

“Esse modelo de compra de passagens aéreas e pacotes flexíveis foi uma operação bastante agressiva, baseada na combinação de preços baixos e no alto investimento em marketing. No entanto, a imprevisibilidade e volatilidade do setor afetou o cumprimento das promessas nos pacotes. Esse modelo de negócio é uma espécie de venda a descoberto, isto é, quando as empresas vendem pacotes com muita antecedência da viagem, acima de um ano, o que faz com que o cliente não receba de imediato a confirmação e os bilhetes aéreos. Companhias aéreas, por exemplo, não vendem passagens com mais de 11 meses de antecedência”, explica.
 

MERCADO DO TURISMO AQUECIDO
 

Ahmed explica que antes da pandemia o setor de turismo havia se tornado um dos mais importantes da economia mundial, representando 10% do PIB global e mais de 320 milhões de empregos em todo o mundo. Para se ter uma ideia, em 1950, no início da “era do jato” da aviação civil, apenas 25 milhões de pessoas viajaram para o exterior. Em 2019, esse número havia chegado a 1,5 bilhão.
 

Mas a indústria do turismo é extremamente vulnerável a choques internos e externos, estando sob constante ameaça. A pandemia teve um impacto profundo e de longo alcance no turismo e na hospitalidade em escala global.
 

Com o fim da emergência sanitária, a demanda por hospedagem voltou a ficar aquecida. Os segmentos corporativo e de eventos começaram a se mostrar mais presentes e constantes, o que deu espaço para reajustes de diária mais robustos.
 

No setor de turismo e hospitalidade, é usada uma métrica chamada Revenue per Available Room (RevPar) ou “Receita por Quarto Disponível”. O desempenho global do setor superou outros setores, como tecnologia e varejo, com a diferença aumentando no segundo semestre de 2023.
 

O “desejo” pós-pandêmico de viajar também continua forte, o que deve impulsionar o crescimento contínuo em 2023. Nos EUA, o RevPAR aumentou 8,1% em 2022 em relação a 2019, e a Europa aumentou 6,1% no mesmo período. A Ásia, impulsionada principalmente pela China, foi o ponto fraco com uma queda de 31,2% no RevPAR de 2019 a 2022. A diária média do setor, que mede a receita média de aluguel obtida por um quarto ocupado por dia, aumentou 13,6% no último ano nos EUA e 18,5% na Europa, quando comparados com os números de 2019.
 

A receita por quarto disponível (RevPAR) excedeu o crescimento do PIB durante o ciclo econômico atual e 2023 deve ser um bom ano para o setor hoteleiro. Ainda assim, demonstra que a indústria de turismo não está em crise, pelo contrário.
 

“O que se pode afirmar é que o modelo de negócios praticado pela 123milhas e Hurb é que parecem estar em crise, desde o início da Pandemia de COVID-19”, acrescenta o professor universitário.
 

As viagens de negócios também estão preparadas para a recuperação, à medida que as empresas aumentam os seus orçamentos de viagens. Feiras e conferências estão com capacidade máxima, refletindo a demanda reprimida que persiste em todos os setores para sair do escritório.
 

Outro fator no ressurgimento da indústria é o crescente segmento da força de trabalho que trabalha em casa. Em alguns casos, esses funcionários elaboram seus planos de viagem em torno de negócios e lazer. Nesse tipo de viagem, os viajantes de negócios adicionam um dia ou reservam um tempo extra em sua viagem de trabalho para passear ou algum outro tipo de atividade de lazer, é uma tendência crescente.
 

“O resultado destes desenvolvimentos de mercado é mais receitas e recuperação económica contínua para o sector hoteleiro”, finaliza El Khatib.
 

Ahmed Sameer El Khatib é doutor em Administração de Empresas, Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais pela PUC/SP e graduado em Ciências Contábeis pela USP. É pós-doutor em Contabilidade pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Administração pela UNICAMP. É professor e coordenador do Instituto de Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e professor adjunto de finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). 

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